
Com uma carreira de quatro décadas, Mário Laginha tem sido sobretudo conotado com o mundo do jazz. Mas a sua música passa igualmente pelas sonoridades brasileiras, indianas, africanas, pela pop e o rock, e pelas bases clássicas que o formaram.
O seu percurso tem sido de partilha constante com outros músicos e criadores. Desde logo, com Maria João, com quem gravou mais de uma dezena de discos, mas também com os pianistas Pedro Burmester e Bernardo Sassetti, o cantor Camané, e, claro, os músicos que compõem os seus dois trios: Bernardo Moreira (contrabaixo) e Alexandre Frazão (bateria), do Mário Laginha Trio; Julian Argüelles (saxofone) e Helge Norbakken (percussão), do LAN Trio.
Tocou e gravou com músicos como Trilok Gurtu, Gilberto Gil, Lenine, Ralph Towner, Manu Katché, Howard Johnson, Django Bates, André Mehmari, Hamilton de Holanda, Wolfgang Muthspiel, Armando Marçal, Dino Saluzzi, Kai Eckhardt, Tcheka, entre outros.
Com uma sólida formação clássica, Mário Laginha compôs para várias formações, incluindo a Big Band da Rádio de Hamburgo, a Big Band da Rádio de Frankfurt, a Orquestra Filarmônica de Hanôver, a Orquestra Metropolitana de Lisboa, o Remix Ensemble, o Drumming Grupo de Percussão e a Orquestra Sinfónica do Porto. Além disso, também compõe para cinema e teatro.
Em Dezembro de 2024, Mário Laginha foi o artista em destaque na Spotlight Series da Berklee College of Music (Boston, EUA).

bio completa
Um músico livre
Mário Laginha é músico. Todas as categorias que possamos colocar à frente serão redutoras. É um músico de jazz, mas não só. É um músico português, mas não só. A diversidade rítmica, melódica e harmónica que leva para as obras que compõe, e para a forma como interpreta, é a síntese de uma personalidade verdadeiramente singular. Se escolhêssemos apenas uma palavra para o caracterizar como músico seria liberdade — e não deixa de ser uma feliz coincidência ter nascido num dia 25 de Abril (de 1960). É absolutamente livre na forma como cruza elementos de várias origens, como transpõe as barreiras de estilos musicais, ou ainda como junta um vocabulário erudito ao vernacular.
Por isso, tão depressa o vemos ao lado de Pedro Burmester, interpretando compositores clássicos do século XX, e a tocar o seu concerto para piano e orquestra, como o escutamos ao lado de Camané, acrescentando ao fado a sua própria linguagem.
Este carácter caleidoscópio da sua obra deixa uma marca distintiva na própria cultura portuguesa, e vai muito além das suas fronteiras. A sua internacionalização passa pelos trabalhos que foi desenvolvendo com vários artistas ao longo da sua carreira: Wayne Shorter, Ralph Towner, Manu Katché, Trilok Gurtu, Laureen Newton, Gilberto Gil, Lenine, Julian e Steve Argüelles, Christof Lauer, Howard Johnson, Lou Donaldson, Al Grey, Dino Saluzi, Kai Ekkart, entre outros.
Foi a liberdade do jazz que o atraiu, depois do arrebatamento provocado pela música de Keith Jarrett quando tinha 17 anos — de tal forma que voltou irreversivelmente para a música e para o piano depois de um interregno adolescente. Completou com nota máxima o curso de piano do Conservatório Nacional, onde estudou com Jorge Moyano e Carla Seixas — mais para adquirir técnica do que seguir carreira de pianista clássico.
Durante esse período de formação, passava tardes inteiras na livraria e discoteca Buchholz, em Lisboa, ouvindo música tradicional africana, absorvendo os ritmos que iriam contagiar praticamente toda a sua música dali em diante.
O duo que formou com a cantora Maria João cresceu muito a partir dessas raízes. Juntos construíram um património musical ímpar, onde se cruzam contágios e geografias por cima do que se poderia caracterizar como uma certa portugalidade (algo mais fácil de identificar do que de descrever). Os discos “Cor” e “Chorinho Feliz”, ambos encomendas da Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses, foram um marco deste trabalho conjunto, trazendo sonoridades do Índico e do Brasil, respectivamente. No primeiro, contaram com a participação de Trilok Gurtu na bateria e percussão e de Wolfgang Muthspiel na guitarra; no segundo, com Gilberto Gil, Lenine, Toninho Horta, Toninho Ferragutti, Nico Assumpção, entre outros.
A primeira colaboração do duo foi em 1983, quando davam os primeiros passos profissionais no mundo da música e Laginha integrou o Quinteto de Maria João. Esta formação gravou dois discos: “Quinteto de Maria João” (1983) e “Cem Caminhos” (1985).
Entretanto, seguindo noutras direcções, Mário Laginha foi um dos fundadores do Sexteto de Jazz de Lisboa, focando-se nesse agrupamento durante os anos seguintes e tocando em prestigiados festivais, como o Edinburgh Internacional Jazz Festival, Brecon Jazz Festival, The Malting Proms, III Festival de Jazz de Macau, Bienal das Artes de Barcelona e 15º Festival de Jazz de Cascais. Em 1987, formava o Decateto Mário Laginha, com o qual participou no Festival “Jazz em Agosto”, da Fundação Gulbenkian, assinando todas as composições. Nesse mesmo ano, foi considerado pela crítica especializada o melhor músico de jazz português. Em 1994, gravou o seu primeiro disco em nome próprio, “Hoje”, que contou com a participação de Julian Argüelles (saxofone), Sérgio Pelágio (guitarra), Bernardo Moreira (contrabaixo) e Alexandre Frazão (bateria) — estes últimos formam ainda agora o seu Mário Laginha Trio.
O reencontro musical com Maria João deu-se na gravação do disco “Sol”, com a participação do grupo Cal Viva (editado em 1992 pela alemã Enja). E durante os anos seguintes, o nome de um viria quase sempre acompanhado pelo do outro. “Danças” (1994), só com piano e voz, foi o primeiro disco gravado em nome do duo e editado pela prestigiada Verve, seguindo-se “Fábula” (1996), no qual colaboraram músicos como Manu Katché, Ralph Towner ou Dino Saluzzi.
Há outros marcos entre os 14 discos onde se juntaram. Em “Lobos, Raposas e Coiotes” (1999), para além das composições, Laginha fez arranjos orquestrais, recorrendo à sua forte herança clássica. O duo gravou com a Orquestra Filarmónica de Hannover, sob a direcção do Maestro Arild Remmereitt, e o resultado foi um trabalho que recebeu fortes elogios da crítica e do público.
Depois disso, o património orquestral de Mário Laginha seria ainda mais explorado. Em 2001 apresentou em estreia mundial a obra escrita para orquestra “Mãos na Pedra Olhos no Céu”, uma encomenda da Porto 2001 Capital Europeia da Cultura, apresentada na cerimónia de abertura oficial. Em 2005 estreou “Até aos Ossos”, uma peça composta para o Remix Ensemble e encomendada pela Casa da Música. Compôs um concerto para piano e orquestra, estreado no 31º Festival Internacional de Música do Algarve, em 2009; um concerto para clarinete e orquestra, numa encomenda de Guimarães Capital Europeia da Cultura (2012), várias peças para diversas formações, como a Big Band da Rádio de Hamburgo, Bigband da Rádio de Frankfurt, Orquestra Filarmónica do Luxemburgo, Orquestra de Jazz de Matosinhos, Orquestra Metropolitana de Lisboa, Drumming, Orquestra Nacional do Porto, Orquestra Geração…
Não era novidade vê-lo em palcos “clássicos”. Há mais de 30 anos que mantém um duo com o pianista Pedro Burmester — o seu disco “Duetos” foi gravado em 1993. Interpretam sobretudo compositores do século XX, como Ravel, Samuel Barber e Aaron Copland. O ano de 2024 foi dedicado à celebração dos 50 anos do 25 de Abril, para a qual os dois pianistas construíram um alinhamento de temas ligados à revolução, e encomendaram uma peça inédita ao compositor Luis Tinoco.
Mário Laginha mantinha também um projecto com Bernardo Sassetti: a parceria teve início em 1999, num concerto integrado no Festival “Jazz em Agosto”. A fusão dos dois estilos e uma forte empatia musical resultou em inúmeras apresentações ao vivo (que incluíram concertos com a Sinfonieta de Lisboa, ou a Orquestra Clássica da Madeira) e na gravação de um disco de originais — “Mário Laginha e Bernardo Sassetti”, editado em 2003. Gravaram ainda “Grândolas” (2004), disco integrado na comemoração dos 30 anos do 25 de Abril. E em 2007, a parceria com Bernardo Sassetti uniu-se à de Pedro Burmester resultando daí o CD/DVD “3 Pianos”.
Mário Laginha é um músico de parcerias e é a elas que se tem dedicado, o que explica que o seu primeiro trabalho a solo date de 2005: “Canções e Fugas” foi apresentado em estreia absoluta no grande auditório da Culturgest, venceu o “Grande Prémio SPA-Millennium BCP” e foi distinguido com o “Prémio Carlos Paredes 2007”.
O seu caminho mais “jazzístico” tem vindo a ser percorrido com dois trios em nome próprio. Primeiro, com o Mário Laginha Trio, que inclui o contrabaixista Bernardo Moreira e o baterista Alexandre Frazão, com o qual gravou o CD “Espaço” (2007), “Mongrel” (2010), reinterpretando a música de Chopin, e “Jangada”, editado em 2022 pela etiqueta inglesa Edition Records. Depois, com o LAN trio, onde se junta ao saxofonista inglês Julian Argüelles e ao percussionista norueguês Helge Norbakken, e que conta com dois álbuns editados, também pela Edition Records: “Setembro” (2018) e “Atlântico” (2020).
Ao longo da sua carreira, tem aberto a porta a vários estilos musicais. Para além de algumas colaborações pontuais com músicos da área da pop, tem mantido há vários anos um duo com Camané. Esta partilha permite-lhe levar para o fado uma identidade própria, com uma abordagem que é ao mesmo tempo tradicional e inovadora na sua erudição. Em 2019, editaram o disco “Aqui Está-se Sossegado”, nomeado para os prémios Grammy Latinos 2020 e vencedor dos prémios Play nesse mesmo ano. São vários os concertos ao vivo que têm dado em Portugal e no estrangeiro.
A sua curiosidade por outros géneros artísticos tem resultado em colaborações nas áreas mais variadas. No cinema, as bandas sonoras de “Cinzento e Negro” (de Luis Filipe Rocha), “Ordem Moral” (de Mário Barroso) e “Campo de Sangue” (de João Mário Grilo) valeram-lhe três prémios Sophia. Também compôs para teatro, ao lado de encenadores como Tiago Rodrigues (“A Perna Esquerda de Tchaikovsky”), Ricardo Pais (“Raízes Rurais. Paixões Urbanas” e “Sombras”), ou Carlos Pimenta (“Estudo para Ricardo III / Um Ensaio sobre o Poder” e "Berenice"). Trabalhou ainda com coreógrafos, como Paulo Ribeiro (“Ao Vivo”). Colaborou num projecto juntando música e desenho em tempo real, com o ilustrador e performer visual António Jorge Gonçalves; com o escritor Gonçalo M. Tavares juntou o improviso da música ao improviso das palavras; compôs um conjunto de peças musicais em diálogo com as peças de cerâmica de Teresa Pavão...
Além de dar workshops ocasionalmente, é ainda director artístico do Festival de Jazz de Loulé desde 2013.
Prémios e distinções
• 2022 - Prémios Sophia: Melhor Banda Sonora Original pelo filme Campo de Sangue
• 2021 - Prémio Sophia: Melhor Banda Sonora Original pelo filme Ordem Moral
• 2020 - PLAY - Prémios da Música Portuguesa com o disco “Aqui está-se
sossegado” (com Camané)
• 2020 - Nomeação para os prémios Grammy Latinos 2020 com o disco “Aqui
está-se sossegado” (com Camané)
• 2019 - Nomeação para os prémios Grammy Latinos 2020 com a canção Sem
Palavras (letra João Monge, interpretação António Zambujo)
• 2017 - Prémios Sophia: Melhor Banda Sonora Original pelo filme Cinzento e
Negro
• 2011 - Prémio Victoire du Jazz para o álbum “Follow the Songlines”
• 2007 - Prémio Carlos Paredes
• 2006 - Grande Prémio SPA-Millennium BCP
• 1990 - prémios de melhor composição, melhor instrumentista e melhor grupo
(referente ao seu quarteto) pelo Concurso de Jazz e Música Improvisada, da
Secretaria de Estado da Juventude.
• 1989 - Finalista do Concurso Internacional de Piano Jazz Martial Solal
Duas vezes agraciado com a Ordem Infante D. Henrique (1995 e 2006)













